terça-feira, 9 de junho de 2009

Já não se fazem bancos como antigamente...

Já não se fazem bancos como antigamente...

Autor desconhecido

- Bom dia, moço! Eu vim porque tava precisando de um dinheiro... Sabe como é, né? As coisas não tão nada fácil...

- Depende, cavalheiro, há certas formalidades prévias que o senhor deverá atender para obter um empréstimo em nosso banco. O senhor já tem cadastro aqui no nosso banco?

- Se eu tenho o quê? Padrasto? O senhor quer dizer um padrinho, um pistolão?

- O que o senhor está querendo insinuar? Perguntei apenas se o senhor já tem ficha aqui no banco.

- Ah, ficha. Sei. Não, aqui no banco, não. Mas mês passado, quando eu operei de hérnia, eles fizeram uma pra mim lá no hospital. Eu tou até com ela aqui no bolso. Sorte, né? Eu peguei ela de lembrança, enquanto a enfermeira não tava olhando e juro que eu não imaginava que ela ainda fosse valer. O senhor pode aproveitar ela mesmo, pra gente ganhar tempo.

- Desculpe, cavalheiro, mas nós não estamos interessados em suas doenças. Precisamos apenas de alguns dados sobre a sua situação financeira. Por exemplo, qual é o seu patrimônio líquido?

- Olhe, líquido, líquido eu não tenho muita coisa não. Já tive no outro terreno que eu tinha. Eram três nascentes e duas água das que só vendo. Mas eu vendi... Meu patrimônio hoje é todo sólido: - terras, casas, um cafezal e umas vaquinhas. Bom, de líquido tem a represa da fazenda e umas garrafas de pinga do tempo que eu tive engenho. É das boas, das amarelinhas...

- O senhor já operou em algum banco?

- Não, em banco não. Operei mês passado mas foi no hospital mesmo, conforme eu falei pro senhor. Se eu soubesse que o banco do senhor opera eu podia ter vindo pra cá, né? Aí quem sabe facilitava agora na hora do empréstimo...

- Não, meu amigo; o senhor não me entendeu. Eu lhe perguntei se o senhor já operou em algum banco da praça?

- Não, na praça nunca. Só lá em casa, sabe. Eu mesmo é que capo meus porcos, corto os cascos das vacas com mangueira, essas coisas, sabe? Mas eu opero tudo é lá no curral mesmo. Tinha graça eu levar esses bichos pra operar num banco da praça, bem em frente da matriz!

- Não se trata disso, cavalheiro. Eu preciso saber é se o senhor já foi mutuário de alguma carteira?

- Que negócio é esse? Então o senhor me acha com cara de camelô para ser mostruário de carteira?

- Mostruário não. Eu disse mu-tu-á-rio. O senhor já teve experiência com alguma carteira?

- Essa agora! Em vez de camelô o senhor agora me acha com cara de batedor de carteira!

- Está difícil fazer-me entender pelo senhor. Mas, pelo que eu depreendi da nossa conversa, o senhor está precisando é de um capital de giro, não é mesmo?

- E eu lá quero saber de giro pela capital, moço. Detesto cidade grande. O que eu falei logo no começo e repito agora é que eu preciso de um dinheirinho emprestado. Só isso.

- Justamente o que eu falei. O senhor quer levantar um financiamento.

- Eu não quero levantar nada! Não posso: depois da operação de hérnia, o médico me proibiu de levantar peso. Quanto mais esse tal de financiamento que eu nem sei quanto pesa! Preciso é de dinheiro, seu moço, di-nhei-ro!

- Está bem, está bem. Vamos ver o que é possível fazer. Não se zangue. É meu dever fazer-lhe todas essas perguntas. Mas qual tipo de “dinheiro emprestado” o senhor quer? Temos várias modalidades: - FINAME, FINRURAL, PROTERRA, PROVÁRZEAS, FIBEP, FIRUM, FIREX, RESOLUÇÃO 14/45, LEI 4.113...

- Moço, pelo amor de Deus, como é que se diz “dinheirinho emprestado” aí nessa língua que o senhor está fazendo? É só isso que eu quero. Por favor, não complique as coisas que eu fico maluco.

- Tá bom, cavalheiro. Mas para que o banco lhe empreste um “dinheirinho” é preciso que o senhor apresente caução. Sem caução será muito difícil o senhor conseguir o seu “dinheirinho”.

- É, eu já imaginava que a nossa conversa ia desaguar nisso... A televisão é que é a culpada dessa pouca vergonha que anda por aí. Imagina um banco pedindo a gente pra ficar sem calção...

- Não, cavalheiro, não é nada disso. Eu estou falando de reciprocidade.

- Recipro... O quê?

- Re-ci-pro-ci-da-de. É preciso que o senhor mantenha um saldo depositado aqui no nosso banco, compatível com o “dinheirinho emprestado” que o senhor precisa...

- Mas peraí: se eu tou precisando de dinheiro como é que eu ainda vou arranjar algum para depositar no seu banco? Afinal, é o banco que vai me emprestar dinheiro ou sou eu que vou emprestar dinheiro pra ele? Moço, vou fazer uma coisa: volto pra minha fazenda e esqueço de dinheiro emprestado. Bem fazia o finado meu pai que guardava dinheiro no colchão e tinha sempre uns ouro pras necessidades. A gente não consegue se entender. O senhor usa esse palavreado difícil, moderno, que deve ser igual o jeito de falar dos americanos, dos japonês, eu só falo essa língua brasileira, né? O mundo tá ficando muito complicado pra mim...

- Se o senhor prefere assim...

- É, é melhor assim. Eu quebro o galho, vendo umas vaquinhas e fica o dito pelo não dito.

- Desculpe-me por não ter compreendido o senhor.

- Nada. Tô com raiva não. Quando tiver tempo, dá um pulo lá na minha fazenda para experimentar uns goles do meu “patrimônio líquido”. Garanto que na terceira dose a gente já vai estar se entendendo perfeitamente. Inté!

4 comentários:

  1. Helenice! Que boniteza de trabalho!
    Estou orgulhosa de minha conterrânea...

    Afetuoso abraço,
    Rosa Maria

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  2. o autor deste texto é o escritor A.J.Lucas CAMARGO, do Livro "Alteza, isso é uma baixeza!"

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